Há livros que chegam às nossas mãos vindos de uma livraria. Outros atravessam o tempo para chegar até nós.
Este pertence à segunda espécie.
Meu avô, José Gomes Correia, escreveu estas páginas ainda nos anos 1980. Nelas, deixou muito mais do que palavras. Deixou lembranças, acontecimentos, lugares, pessoas e fragmentos de uma vida inteira. Deixou, sobretudo, seu próprio olhar sobre o mundo e sobre o tempo que lhe coube viver.
Em 1990, apenas três ou quatro exemplares deste livro chegaram a ser produzidos. Não houve uma publicação propriamente dita, nem distribuição. Foram pouquíssimas cópias, entregues a pessoas próximas. Por isso, durante muitos anos, este texto permaneceu praticamente restrito à família e àqueles poucos privilegiados que puderam guardar um de seus exemplares.
Um deles chegou às mãos de minha tia Carlinda Ferraz Correia, entregue pelo próprio autor.
Anos depois, ainda em vida, tia Carlinda me presenteou com o único exemplar que possuía. Talvez ela não pudesse imaginar a dimensão que aquele gesto teria para mim. Recebi não apenas um livro, mas um pedaço da história de meu avô.
É o meu pequeno tesouro.
Hoje, o exemplar original está velhinho. Suas páginas carregam as marcas dos anos; o papel amarelou e as manchas se espalharam por muitas delas. Mas nada disso diminui seu valor. Ao contrário. Cada sinal do tempo parece confirmar que tenho diante de mim um documento que atravessou décadas para continuar contando uma história. Para mim, seu valor é inestimável.
E há uma emoção ainda maior quando encontro nessas páginas histórias que conheci muito antes de lê-las.
São episódios que tive o privilégio de ouvir da própria voz de meu avô durante minha infância. Ao relê-los agora, é quase possível escutá-lo novamente, contando cada detalhe.
Entre essas lembranças está o episódio em que Lampião foi baleado na Fazenda Tigre. Naquele dia, Santina Gomes de Sá, avó do meu avô, estava em casa quando Lampião e seu bando chegaram à propriedade. Pouco depois, a polícia, que seguia o rastro do grupo, aproximou-se e abriu fogo. Ferido durante o confronto, Lampião precisou ser carregado por seus companheiros enquanto deixavam o local. Décadas mais tarde, essa história, que ouvi ainda menino, permanece viva nestas páginas.
Também está aqui uma aventura pessoal, quando deixou sua terra e viajou para Mato Grosso, em busca de trabalho e de uma vida melhor. Lá chegando, trabalhou em garimpo e enfrentou uma realidade completamente diferente daquela que conhecia. São passagens que revelam coragem para partir, disposição para trabalhar e uma inquietação permanente diante das possibilidades que a vida oferecia.
E há uma história de que sempre me recordo com especial admiração: sua viagem a Brasília, quando se encontrou pessoalmente com o então presidente João Goulart para pedir a instalação de energia elétrica na região da beira do Rio São Francisco.
E foi atendido.
Imagino o que significava, naquele tempo, sair do interior e chegar à recém-construída capital do país levando consigo uma reivindicação de sua comunidade. Mais do que a dimensão do pedido, impressiona-me a iniciativa. Meu avô acreditava que era possível fazer alguma coisa, procurar alguém, abrir um caminho. Onde muitos talvez enxergassem apenas distância e dificuldade, ele enxergava uma possibilidade.
Trabalho, iniciativa e visão talvez sejam algumas das palavras que melhor traduzam o homem que encontro nestas páginas — e aquele de quem me lembro.
Por isso, publicar este livro tantos anos depois possui, para mim, um significado que ultrapassa a simples recuperação de um texto antigo.
É uma forma de preservar sua voz.
Nesta edição, apresento a obra na íntegra, respeitando sua essência, sua narrativa e as memórias registradas pelo autor. Somente na parte dedicada à genealogia foram acrescentadas atualizações, necessárias para incluir as novas gerações de nossa família, nascidas depois da época em que o livro foi escrito. Todo o restante foi preservado, mantendo aquilo que considero mais precioso: a voz original de José Gomes Correia.
Há algo profundamente bonito em pensar que aquelas poucas páginas datilografadas, das quais sobreviveram tão poucos exemplares, possam agora alcançar filhos, netos, bisnetos, tataranetos e as gerações que ainda virão — muitos dos quais não tiveram, ou não terão, a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente.
A eles, especialmente, dedico esta publicação.
Que este livro permita aos descendentes de José Gomes Correia conhecer um pouco melhor o homem que veio antes de nós. Que saibam de onde vieram algumas das histórias contadas em nossa família. Que conheçam suas viagens, suas dificuldades, suas iniciativas, suas aventuras e sua maneira de enfrentar a vida.
E que, ao terminarem estas páginas, possam compreender aquilo que tive a felicidade de aprender não apenas por meio deste livro, mas também sentado diante dele, ainda criança, ouvindo-o contar suas histórias:
José Gomes Correia foi um homem de trabalho, de iniciativa e de visão.
O tempo envelheceu o papel, amarelou as páginas e deixou suas manchas sobre o único exemplar que chegou às minhas mãos.
Mas há coisas que o tempo não consegue apagar.
Hoje, ao publicar novamente suas palavras, sinto que, de alguma maneira, devolvo sua voz ao futuro.
E talvez seja esta a melhor forma de agradecer pelo pequeno tesouro que um dia recebi: não guardá-lo somente para mim, mas compartilhá-lo com aqueles que vieram depois.
Para que conheçam sua história.
Para que saibam quem ele foi.
E para que sua voz continue sendo ouvida.
Tenha uma boa leitura!
Roberto Gomes Correia Filho


